Letramento digital chega à Aldeia Aconã

Uma dança de boas-vindas, ao som de maracás e cantos tradicionais, marcou o início da formação em letramento digital realizada na comunidade indígena Aconã, no município de Traipu, Agreste de Alagoas. A atividade integra o projeto Raízes em Rede, idealizado pelo Instituto Anjos Digitais, que tem como objetivo capacitar povos originários para o uso consciente e estratégico da tecnologia.

O primeiro encontro aconteceu na Escola Estadual da Aldeia Aconã e reuniu vinte indígenas da etnia. O momento inicial foi dedicado à escuta e à construção coletiva de saberes, com dinâmicas de integração entre os participantes e os facilitadores da formação.

“A ideia é primeiro entender a vivência de cada um, como se comunicam, quais as dificuldades que já enfrentaram com o digital. A gente parte da realidade deles para construir o conteúdo juntos”, explicou o pedagogo José Jilson, responsável por conduzir a dinâmica inicial.

Segundo Rossana Moura, fundadora e presidente do Instituto Anjos Digitais, o projeto é estruturado em cinco eixos centrais: econômico, social, ambiental, cultural e digital. A proposta é respeitar as especificidades de cada território indígena, desenvolvendo metodologias que dialoguem com os contextos culturais e sociais das comunidades atendidas.

“A formação é pensada para fortalecer as narrativas próprias, não para substituir saberes. A tecnologia entra como uma aliada para dar visibilidade e autonomia às vozes indígenas”, destacou Rossana.

Além do letramento básico, o projeto também incentiva o uso das ferramentas digitais para a geração de renda. Na comunidade Aconã, o tema do empreendedorismo despertou o interesse de participantes como Gabriel Aconã, que já atua como artesão e quer ampliar sua presença nas redes sociais.

“Quero aprender marketing digital para divulgar melhor meu trabalho, usar o WhatsApp, o Instagram, fazer vídeos… Isso pode ajudar muito a gente a vender mais e mostrar nossa cultura”, afirmou Gabriel.

O Raízes em Rede conta com o apoio da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), do Programa de Pós-Graduação da universidade e da Secretaria de Ciência e Tecnologia de Alagoas. Um dos objetivos é que a formação contribua para ampliar o acesso à informação, fortalecer a identidade cultural e preparar os participantes para os desafios do mundo digital.

“Conectar não é só ligar à internet. É criar pontes entre saberes, entre gerações, entre culturas. E isso começa com respeito, escuta e formação”, concluiu Rossana Moura. 

Emoção digital: indígenas têm primeiro contato com computador

Imagine acessar um computador pela primeira vez e descobrir um novo mundo por trás da tela. Foi exatamente essa a sensação vivida por Iara Saraiva, da comunidade indígena Aconã.

“Eu nunca tinha usado computador. Quando vi como funciona, achei muito interessante. Fiquei emocionada porque a gente pode aprender muitas coisas”, contou Iara, visivelmente encantada com a experiência.

“É importante garantir que as comunidades tenham acesso às tecnologias. Não é só ter o equipamento, mas saber usar de forma consciente e transformadora”, explicou Nathály Sarmento, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI/UFAL), uma das responsáveis pelas oficinas.

Além de ensinar a usar computadores e celulares, o projeto também discutiu a importância de entender como a informação circula — e como reconhecer a desinformação, algo essencial nos dias atuais.

“Eles compartilharam situações em que já foram enganados. Falamos sobre informação e também desinformação. Foi um momento de troca e de conscientização”, destacou Maria Luiza, assistente social e capacitadora do projeto.

A fala de Ariel Saraiva reforça a urgência do tema.
“Teve um golpe que enganaram meu pai dizendo que ele tinha ganhado um carro, e depois pediram pra depositar uma quantia em dinheiro. Por isso essa palestra foi importante. Para que a gente aprenda e não seja mais enganado”, relatou o jovem indígena.

Depois das reflexões, foi hora de praticar. Os participantes aprenderam a usar aplicativos como o Canva e o Gama — ferramentas gratuitas voltadas à criação de peças gráficas e gestão de projetos, que podem ajudar na divulgação de produtos e no fortalecimento da economia local.

“A gente apresentou ferramentas que ajudam na criação de conteúdo e na divulgação dos próprios negócios”, explicou José Jilson, um dos capacitadores.

A indígena Wane Aquino ficou especialmente animada ao aprender a criar um QR Code:
“Eu nem sabia que dava pra fazer isso. Achei o máximo! Agora posso usar pros meus produtos.”

A atenção e o entusiasmo dos participantes mostraram que o conhecimento chegou para ficar.

“Ter a equipe do Projeto Anjos Digitais em nossa comunidade foi um grande presente”, avaliou Wane.
“É um passo pra autonomia digital dessas comunidades”, concluiu Nathály Sarmento.

 

Olhares que contam histórias: técnicas de fotografia na aldeia

Na comunidade indígena Aconã, a fotografia virou instrumento de expressão, memória e orgulho. A oficina sobre técnicas de fotografia foi conduzida remotamente, do Rio de Janeiro, pela documentarista e fotógrafa Luciana Salvatore.

A aula começou com a prática: Cauã Saraiva, jovem da aldeia, foi fotografar o que mais ama – a natureza. “Eu gosto muito de fotografar a natureza, os rios, os pássaros”, disse Cauã.

Em outro momento, Elenilson Pires registrava imagens da jovem Yaranan Saraiva, que se ofereceu como modelo. Após os cliques, ambos analisaram juntos o resultado. 

“Foi muito legal aprender mais sobre fotografia. Eu gosto de ser modelo, de mostrar a nossa cultura com essas imagens”, contou Yaranan. Elenilson, por sua vez, reforçou o desejo de seguir aprendendo: “Quero aprender ainda mais, não só fotografia, mas também computação. Quero ter um trabalho melhor, mostrar o que a gente faz aqui.”

Depois da experiência externa, os participantes voltaram para a sala de aula, onde acompanharam a aula ao vivo com Luciana Salvatore, que compartilhou técnicas de composição, luz e enquadramento. 

“Falei muito sobre como contar histórias com imagens, sobre o cuidado no olhar e sobre o que eles querem mostrar para o mundo. Foi muito lindo ver o envolvimento deles”, destacou a fotógrafa.

A entrada da sala foi marcada por uma exposição das imagens feitas pelos capacitadores durante a primeira visita que fizeram à aldeia, mostrando na prática o que foi ensinado na formação.

Ao final da atividade, os participantes foram homenageados e receberam certificados. Estiveram presentes a fundadora do Instituto Anjos Digitais, Rossana Moura; a coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), professora Rosaline Mota; e a vice-reitora da UFAL, Eliane Cavalcanti.

“A equipe toda está muito feliz com o envolvimento da comunidade. Ver os resultados e o brilho no olhar de cada um nos emociona”, afirmou Rossana Moura.

Para a professora Rosaline Mota, a troca foi rica para todos os envolvidos. “O PPGCI-UFAL contribuiu com muito orgulho. Esses saberes trocados aqui enriquecem a todos nós.”

A vice-reitora da UFAL destacou o impacto da ação no território. “O letramento digital é uma ferramenta de transformação e inclusão para todos os povos. A universidade está de portas abertas para fortalecer essas pontes.”

Ao fim da cerimônia, o Cacique Djalma Saraiva fez um agradecimento emocionado: “A gente agradece a todos que vieram ensinar aqui na nossa aldeia. Isso é muito importante pra nossa juventude e pra nossa cultura seguir viva.”

Com câmeras nas mãos e novos conhecimentos no olhar, os indígenas Aconã agora têm ainda mais ferramentas para registrar e espalhar a riqueza de sua história e identidade para o mundo. E cada imagem registrada agora carrega um novo olhar: o olhar de quem aprendeu a contar sua própria história.