A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deve se manifestar nas próximas semanas sobre os pedidos de registro de versões nacionais do Ozempic e de medicamentos similares à base de semaglutida. A informação foi confirmada pela própria agência, que informou que os processos estão em fase final de revisão interna para receber as primeiras manifestações.
O Ozempic, produzido pela farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, é indicado para o tratamento da diabetes tipo 2, mas ganhou ampla popularidade também pelo uso associado à perda de peso. O princípio ativo do medicamento é a semaglutida, cuja patente no Brasil expira em 20 de março de 2026 . Com o fim dessa exclusividade, outras empresas podem solicitar autorização para fabricar e comercializar produtos com a mesma substância, desde que aprovados pela Anvisa.
Quem são os concorrentes
Entre os pedidos em análise estão produtos da farmacêutica EMS e da empresa Ávita Care, que assumiu um pedido inicialmente protocolado pela Momenta, do grupo Eurofarma . A EMS é o único laboratório nacional que já comercializa canetas emagrecedoras de geração anterior, à base de liraglutida, concorrentes dos medicamentos Saxenda e Victoza.
Além dessas, outras farmacêuticas como Biomm, União Química, Hypera, Cristália, Libbs, Aché e Eurofarma também demonstraram interesse no segmento . A Eurofarma, inclusive, já firmou parceria com a Novo Nordisk em 2025 para a distribuição do Poviztra e do Extensior, ambos à base de semaglutida.
A aprovação, no entanto, não é automática. Mesmo após o fim da patente, os laboratórios precisam comprovar qualidade, eficácia e segurança por meio de dossiês técnicos avaliados pela agência reguladora. A Anvisa ressalta que não há garantia de que os pedidos serão autorizados, já que o órgão pode solicitar informações adicionais ou até indeferir o processo.
Mercado bilionário
A corrida pelos "Ozempics genéricos" envolve um mercado bilionário. Relatório do Itaú BBA aponta que os remédios agonistas do GLP-1 movimentaram cerca de R$ 10 bilhões em 2025, o que corresponde a aproximadamente 4% do mercado farmacêutico brasileiro . As projeções indicam que esse volume pode alcançar R$ 20 bilhões em 2026.
A EMS estima que sua versão da semaglutida deve gerar entre R$ 350 milhões e R$ 400 milhões em receita nos primeiros 12 meses de vendas, com a comercialização de aproximadamente 700 mil canetas . A empresa já investiu mais de R$ 1 bilhão em uma plataforma própria para produção de liraglutida e semaglutida em Hortolândia (SP).
A Biomm também confirmou investimentos robustos: R$ 800 milhões em uma planta industrial em Nova Lima (MG), onde já fabrica insulina.
Possibilidade de incorporação no SUS
O debate ocorre em meio à alta demanda por medicamentos à base de semaglutida no Brasil. O preço elevado das canetas injetáveis e o uso ampliado para controle de peso aumentaram a pressão por alternativas nacionais que possam ampliar o acesso.
Com o barateamento dos medicamentos, abre-se a possibilidade de uma eventual inclusão da semaglutida no Sistema Único de Saúde (SUS). O Ministério da Saúde solicitou à Anvisa prioridade no registro de medicamentos com semaglutida e liraglutida.
Em 2025, uma análise para possível inclusão do Ozempic na saúde pública foi negativa, pois o impacto orçamentário foi avaliado em mais de R$ 8 bilhões anuais — quase o dobro do orçamento total do programa Farmácia Popular.
Para serem incluídas no sistema público, os novos medicamentos precisarão ser substancialmente mais baratos. O professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, Gonzalo Vecina Neto, afirma que, mesmo em versões genéricas, o medicamento enfrentaria outro entrave no SUS: a alta demanda. Cerca de 31% da população adulta brasileira vive com obesidade, segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2025.
Riscos e regulação
Além do impacto no mercado privado, a necessidade de rigor regulatório chama atenção, especialmente diante do uso fora das indicações aprovadas e da circulação de versões manipuladas sem comprovação científica adequada. A Anvisa tem emitido alertas sobre os riscos dos agonistas do GLP-1, incluindo pancreatite aguda, aspiração pulmonar durante procedimentos anestésicos e, em casos raros, perda de visão.
A agência enfatiza que o uso indiscriminado e fora das indicações autorizadas, especialmente com finalidade estética e sem necessidade clínica, amplia a probabilidade de efeitos adversos e pode dificultar o reconhecimento precoce de complicações graves.
A decisão final da Anvisa ainda não tem data anunciada, mas a expectativa é que seja divulgada nas próximas semanas. O desfecho pode redefinir o cenário brasileiro para medicamentos à base de semaglutida, tanto no tratamento do diabetes quanto no controle da obesidade.

