Temas relacionados à ciência nuclear têm sido abordados com maior frequência em produções audiovisuais. A minissérie Emergência Radioativa (lançada em plataforma de streaming) dramatizou o acidente com o césio-137 ocorrido em Goiânia (GO), em 1987. A obra expôs a corrida contra o tempo de físicos e médicos para conter a contaminação provocada pelo cloreto de césio-137.   

Walter Mendes — físico que atuou diretamente na resposta ao acidente e inspirou a criação de um personagem central da série — avalia o impacto da obra: "A minissérie tornou popular essa história do acidente. Ela adequou a linguagem para o público por meio de um pouco de dramatização e acabou ilustrando a história de uma forma acessível, compreensível e impressionou tanto adultos como as crianças", explica o pesquisador.   

A popularização gerada pela televisão materializou-se em encontros reais. "Especialmente as crianças simpatizaram com o personagem principal, um cientista, porque viram a figura de um herói. Todas elas querem ser um herói, querem ser um físico da área nuclear", ressalta Mendes. Durante um congresso de radiologia no Paraná (PR), por exemplo, uma menina de 8 anos pediu aos familiares que a levassem para conhecer o especialista pessoalmente. A criança percorreu 120 quilômetros (de sua residência no litoral paranaense até a capital Curitiba) exclusivamente para conversar com o físico.   

Multiplicadores de mensagens  

A transferência do conhecimento acadêmico para o cidadão exige preparação rigorosa. O tecnologista da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) Roberto Vicente concentra sua atuação no engajamento da rede de ensino. Com especialização em Gestão de Rejeitos Radioativos, ele organiza cursos de tecnologia nuclear para professores do ensino médio de escolas públicas. "Esse público é muito importante para a divulgação de ciência, porque é formado por multiplicadores de mensagens", afirma.   

Ao ministrar palestras sobre matrizes elétricas ou os efeitos da radiação, o físico constrói pontes com o dia a dia da plateia. "Isso faz com que as pessoas desenvolvam um conhecimento próprio, melhorem seu letramento científico. O que espero é que isso as torne mais críticas ao preconceito e às informações suspeitas ou falsas que chegam, sejam mais receptivas à ciência real", defende Vicente.   

Ele reforça o peso da linguagem na conexão com o público. "Quando se consegue falar sobre temas complexos com uma linguagem simples, sem jargões, sem termos em outras línguas e usando analogias e exemplos da vida diária, se obtém empatia do público", ensina.  

Combate à desinformação  

Desconstruir o medo em torno da radiação requer um engajamento sistemático e humano. A servidora da Cnen Valéria Pastura acompanha a evolução dessa percepção pública há 38 anos. A cientista vivenciou o peso da crise ao executar o monitoramento ocupacional nas residências goianas afetadas pelo césio-137 e ao prestar atendimento aos radioacidentados no Hospital Marcílio Dias. Atuando na linha de frente da comunicação governamental desde 1996, ela relata a transformação gradual de quem busca os estandes de ciência. "De início demonstra receio, mas quando começa a entender o tema, o aprova e ainda leva para seus familiares o que aprendeu", pontua Valéria.   

Esse retorno ocorre em vitrines como a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT). A pesquisadora coleciona relatos de famílias que retornam em edições seguidas da exposição, que ocorre anualmente. Para a física, o motor do ensino científico é evidente. "O tema nuclear é complexo e com pouca aceitação, mas a credibilidade e relevância da medicina nuclear são inegáveis. A energia nuclear é limpa e será o futuro do mundo em termos de energia para suprir os mega clusters que estão sendo construídos", projeta a especialista. "Combater a desinformação, em qualquer área da ciência, é um trabalho de formiguinha, mas que não pode parar", avalia.