A rotina de quem trabalha na Maternidade Escola Santa Mônica, em Maceió, tem sido marcada por um sentimento cada vez mais comum entre os profissionais: o desolamento. O termo, utilizado por médicos da unidade para definir a realidade vivida pela equipe, sintetiza o cenário de precariedade enfrentado diariamente na principal maternidade de alto risco de Alagoas, administrada pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), em parceria com a Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal).

Em um relato contundente, que representa o sentimento compartilhado por diversos médicos da instituição, uma profissional afirma que trabalhar na Santa Mônica deixou de ser apenas um desafio da medicina para se tornar uma luta permanente contra o abandono administrativo.

"Trabalhar na Maternidade Santa Mônica hoje não é apenas um desafio profissional; é um exercício diário de desolamento. É como estar em uma terra que perdeu sua fertilidade, sua base. Assim me sinto, cercada pela importância vital da missão enquanto testemunho o desmoronamento da estrutura que deveria nos sustentar", disse a médica.

O depoimento revela que a maior angústia dos profissionais não está na complexidade dos casos atendidos, mas na falta das condições mínimas para prestar assistência segura às gestantes e aos recém-nascidos.

"Meu desolamento nasce da carência do básico. Em uma unidade onde a fronteira entre a vida e a morte é tão tênue, a falta de insumos não é apenas uma falha administrativa; é uma violência ética", completou.

Segundo outro médico, a equipe convive diariamente com a frustração de possuir conhecimento técnico e experiência suficientes para salvar vidas, mas encontrar obstáculos estruturais que comprometem o atendimento. O relato também aponta para um sentimento de abandono por parte do poder público. Para o profissional, a deterioração da maternidade ocorre diante da inércia do Estado.

"Ver o Estado de Alagoas permitir esse declínio gera em mim uma sensação de abandono institucional que ecoa por todos os cantos dessa casa."

Na avaliação dos médicos, a Santa Mônica permanece funcionando graças ao esforço dos próprios trabalhadores, que acumulam jornadas exaustivas, convivem com desgaste emocional e assumem responsabilidades muito além das previstas.

"Nossa maternidade hoje não se sustenta por gestão ou infraestrutura, mas pelo que ainda resta: o recurso humano, já desgastado pelo excesso de carga, pela responsabilidade de compensar a falta de investimento e pela percepção de que todo esforço heroico é invisível. É impossível sentir valorização quando o ambiente de trabalho agride a dignidade do exercício profissional", afirmou mais um médico que atua na unidade.

Para os profissionais, a instituição, que durante décadas foi referência em assistência materno-infantil, vive um processo de deterioração preocupante.

"Vejo uma referência estadual reduzida a uma sombra do que poderia ser." "Atuar nessa maternidade hoje é sofrer duplamente: sofrer pela mãe e pelo bebê que chegam vulneráveis e sofrer por mim mesma, ao perceber que faço parte de um sistema que parece ter desistido de cuidar de quem cuida", relatou outra obstetra.

A profissional alerta que o desgaste emocional já compromete a motivação da equipe.

"Quando a autoestima acaba e a motivação desaparecem, o que resta é o automatismo. O desolamento é o estágio final antes da exaustão completa."

Mesmo diante das dificuldades, os médicos seguem garantindo o funcionamento da unidade, mas alertam que esse modelo se tornou insustentável.

"Em Alagoas, esta maternidade sobrevive hoje como um milagre de resistência humana. Até quando conseguiremos ser o único alicerce de um prédio que o Estado deixa ruir? Estamos fazendo sempre além do que devemos, pautados por uma resiliência patológica", concluiu!

Sindicato dos Médicos cobra resposta do Governo

Diante das denúncias, a presidente do Sindicato dos Médicos de Alagoas (SINMED-AL), Dra. Sílvia Melo, afirmou que os depoimentos não representam o retrato da realidade enfrentada pelos profissionais da Maternidade Santa Mônica. Segundo ela, é inadmissível que uma unidade responsável pelo atendimento de gestantes de alto risco e recém-nascidos funcione sob condições tão precárias.

"A Santa Mônica é uma referência estadual e não pode continuar dependendo exclusivamente do sacrifício dos seus profissionais para manter as portas abertas. O Governo do Estado precisa assumir sua responsabilidade, garantir insumos, melhorar as condições de trabalho e promover investimentos estruturantes. Não é aceitável que médicos, enfermeiros e toda a equipe sejam obrigados a trabalhar em condições que comprometem tanto a assistência quanto a própria saúde física e emocional dos trabalhadores."

A presidente do SINMED/AL destacou ainda que o sindicato continuará acompanhando a situação e cobrando providências imediatas da Secretaria de Estado da Saúde e da direção da unidade.

"Os relatos desses médicos traduzem o sentimento coletivo de uma categoria que está no limite. Quem cuida da vida também precisa ser cuidado. Não podemos normalizar o abandono de uma maternidade que desempenha um papel estratégico para toda a saúde pública de Alagoas."

Para os profissionais, a crise vivida pela Santa Mônica deixou de ser uma questão administrativa e tornou-se um problema de saúde pública, exigindo uma resposta urgente do Governo de Alagoas antes que o esgotamento das equipes comprometa ainda mais a assistência prestada às mulheres e aos recém-nascidos.